Objetos são descartáveis, pessoas não!  

14-01-2019

Comprometidos numa luta diária, na tentativa de sobrevivermos num ritmo que se impõe cada vez mais frenético e alucinante, fomos aos poucos nos esquecendo de viver a nossa "vida". 

É contraditório pensar nisso, na perspectiva de um mundo tão tecnológico, que nos permite "ter" tudo ali na palma da nossa mão. Toda essa tecnologia nos passa a falsa impressão de que estamos vivendo mais, aproveitando mais a vida. Podemos nos movimentar sem sair do lugar...Mas será mesmo que estamos aproveitando? Nossos valores foram pouco a pouco sendo modificados para se conciliarem com essa nova ideologia.

Pra entender melhor o uso da palavra descartável no decorrer da leitura, vamos falar um pouco sobre o conceito de 'sociedade líquida'O tempo em que vivemos é chamado por muitos pensadores como "pós-modernidade", mas o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, criou o conceito de "modernidade líquida" pra definir o presente. 

É sensacional a forma como ele escolhe a metáfora do "líquido" ou da fluidez como o principal aspecto do estado dessas transformações. Um líquido sofre constante mudança e não conserva sua forma por muito tempo e isso se aplica perfeitamente nas relações sociais de hoje. 

"As formas de vida contemporânea, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, se assemelham pela vulnerabilidade e fluidez, incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça um estado temporário e frágil das relações sociais e dos laços humanos. Essas mudanças de perspectivas aconteceram em um ritmo intenso e vertiginoso a partir da segunda metade do século XX. Com as tecnologias, o tempo se sobrepõe ao espaço. Podemos nos movimentar sem sair do lugar. O tempo líquido permite o instantâneo e o temporário"



Ou seja, qualquer relação que se dispõe a durar não vai ter chance nessa sociedade líquida. O sucesso vai estar sempre relacionado à capacidade de rotatividade nos relacionamentos, a capacidade de trocar de relacionamentos no menor espaço de tempo possível. Nesse contexto surge o termo descartável.

Vivemos em um mundo onde as pessoas são descartadas da forma mais ridícula e desrespeitosa possível e o pior, na maioria das vezes por motivos extremamente banais, ou por causa do ego mesmo. Quando temos um problema, não procuramos soluciona-los. Simplesmente damos as costas e seguimos em frente. Como não queremos sequer falar sobre o problema, vamos nos afastamos das pessoas que nos decepcionam sem nem ao menos discutir e se resolver. Sem dar uma segunda chance, dizemos adeus e excluímos elas de nossas vidas.

O raciocínio é:"Como não consigo ter um relacionamento que me traga satisfação, tento preenchê-lo como inúmeros relacionamentos superficiais". Como o sucesso se dá pela rotatividade, acaba se tornando necessário essa troca constante de relações com a finalidade de manter esse vazio sempre "preenchido" ao invés de criar vergonha na cara e se empenhar pra manter as relações.

Sendo assim, fica claro que não existem laços que mantenham as pessoas envolvidas. De forma que o tempo todo, pessoas se desfazem de pessoas, como se estas fossem tão importantes quanto um prato descartável. Nesse contexto, uma pessoa e um copo descartável desempenham a mesma função: no primeiro momento são úteis para atender uma necessidade imediata, em seguida, ambas perdem o valor, são amassados e jogados fora.



Já parou pra pensar quantas pessoas entram e saem da nossa vida sem que possamos, de fato, conhecê-las? Nos habituamos a não criar laços, e fixar raízes em nossas relações. Não to falando que somos eternos vilões da Disney ok? Só to ressaltando o fato de sermos tão sugados diariamente pela falta de tempo pra tudo que simplesmente não temos paciência para investir nas nossas relações. 

"Temos necessidade de relacionamentos que sejam levados pelo vento, pois só o tempo permite que criemos raízes, e estas parecem inadequadas aos nossos tempos. Quanto maior a raiz, mais profundo um relacionamento torna-se e, por conseguinte, torna-se mais difícil arrancá-lo. Assim sendo, o valor que o outro nos atribui varia conforme a sua necessidade. Podemos ser essenciais em determinado momento, e noutro ser um estranho. Esse espaço entre ser essencial e ser um estranho vem diminuindo com o passar do tempo, uma vez que, como nada é feito para durar, nossas necessidades também mudam constantemente e, por conseguinte, deixamos de ter importância para o outro, pois essa importância é condicionada a necessidade que tínhamos."

-https://obviousmag.org/a-era-descartavel.

Quem nunca descartou alguém ou foi descartado? Então fica claro que não gostamos de criar raízes e como consequência fugimos para relacionamentos baseados na facilidade de se desconectar e descartar. Nos reduzimos e nos rebaixamos a meras mercadorias. Logo é normal nos sentir cada vez mais sozinho e com relacionamentos instáveis.

 "A era descartável é silenciosa e fugaz, quando menos esperamos, somos jogados fora, dado que nossa utilidade chegara ao fim."


Nessa modernidade líquida, a velocidade é quem determina tudo. O tempo da as cartas. Então faz sentido não existir tempo para refletir sobre nossas ações, sobre o que queremos(...) Apenas fazemos e deixamos de fazer, parece que estamos ligados no modo automático, somos importantes e deixamos de ser importantes do dia para a noite e sem a menor capacidade de reflexão ou diálogo porque é mais fácil ignorar e cortar da sua vida do que se permitir sentir, escutar seus pensamentos.

Percebe que a facilidade nesse contexto se torna uma linda jovem sedutora? E como somos rapidamente seduzidos por ela não é mesmo? Se desfazer do outro a qualquer momento é sempre mais prático. No primeiro momento, sem duvidas parece ser a melhor opção. 

Mas o grande problema é que com o passar do tempo as opções vão diminuindo, até que todos sejam descartados e você esteja literalmente sozinho. Aí você cai na real e percebe que o problema nunca esteve nos outros. Sempre foi você e essa sua mania de descartar tudo e todos. 

As pessoas não são descartáveis. É tão bom viver cercada de amigos, da família. Ninguém é perfeito, então tá mais do que na hora da gente parar de tratar as pessoas com tanta superficialidade. Ter pessoas ao nosso redor nos deixa mais fortes, nos sentimos mais vivos, aprendemos a nos valorizar. 

Não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você.Não vale a pena ficar alimentando ódio ou rancor das pessoas (óbvio que existem situações e situações ok?). Mas digo isso por mim, já passei muito tempo alimentando sentimentos negativos que no final das contas nunca me fizeram bem.


"Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar." -Zygmunt Bauman




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